sábado, 12 de fevereiro de 2011

Diário de um brasileiro marginalizado.










“- Pro chão vagabundo!”
            Odeio quando esses filhos da puta de farda e estes bonés ridículos dizem isto. E o pior é que a gente num pode nem culpar estes bundões por isso.  Eles obedecem ao chefe de polícia, que obedece ao subsecretário de segurança, que obedece ao secretário de segurança, que obedece ao governador, que é influenciado pelos deputados, que são influenciados pelos senadores, enfim... Esta corja de hipócritas; eles pensam que podem tudo, que sabem tudo e claro, eles também pensam que são o tudo. Odeio esta gente nojenta, pra falar a verdade quando é em tempo de eleição eu nem voto, nem nada. Só de pensar que vou vê a cara daqueles palhaços lá na urna já me dá náuseas.
            A porra do policial me mandou levantar e encostar no carro para me revistar. Droga eu nem era traficante nem nada. Só porque eu era da favela e estava saindo de lá naquela hora aqueles veados vieram me aporrinhar. A vontade que me dava era mandar ele ir tomar no cu, ele e os amiguinhos dele, que assistiam aquela cena rindo. Bando de pau mandado do caralho. Mas eu fiz tudo o que ele mandava. Afinal de conta eu ainda queria viver mais uns dias desta vida imunda e sebosa. Não é legal quando se é um trabalhador e os tiras metem uma bala na cabeça da gente e dizem pra todo mundo que você é traficante, e ainda, se possível, enfiam uma arma deles na cintura da gente.
            Depois de terminar de me revistar e vê que eu não carregava nada de droga, o filho da puta encontrou em meu bolso o meu cheque do pagamento do mês. Eu tinha de levar para trocar na hora do almoço, eu não tinha tempo em outro horário. Trabalhar nesta merda de país é assim mesmo. Além de não almoçar enfrentando a porra de uma fila que dobra o quarteirão, ainda teria de escutar reclamações do patrão por eu ter chegado dez minutos atrasado. O merda do policial queria ficar com o cheque para ele, disse que era um cheque roubado de alguma pessoa ou coisa do tipo. Eu mostrei a ele a minha carteira de identidade, mas mesmo assim o cretino queria ficar com o cheque. Até que eu mostrei que o nome da identidade e do cheque era o mesmo. Mas ele fazia questão de ficar com cheque. Eu me irritei muito com isso; os malucos da minha quebrada não me roubavam, por que eu ia ser roubado pela a merda de um policial? A minha sorte foi porque o outro policial, talvez um pouco menos fedorento do que a bosta do outro policial, disse que eu era um trabalhador e que não poderia fazer aquilo. Aí ele me deixou em paz.
Mesmo tendo escapado daqueles dois bandidos eu tinha de aguentar a bronca do filho da mãe do meu patrão, por eu ter me atrasado cinco minutos. Todo dia eu saio de casa duas horas antes da hora de meu emprego começar. E mesmo assim, tinha dias que eu chegava até trinta minutos atrasado. Era uma droga. Como tinha dias que eu chegava uma hora antes de abrir a droga da fábrica.
Mas o que mais me irritava era levar uma lapada de chuva nas costas em pleno ponto de ônibus. Aquilo me irrita muito. Chego em casa todo molhado e a minha mulher me olha, com aqueles olhos lindos e castanhos que ela tem, e me diz a piadinha de sempre: “- Resolveu tomar um banho no rio de novo, amor?” ela bem sabe que a porcaria daquele rio não serve para se tomar banho, a poluição é muito e não tem condição nenhuma de se pescar, quanto mais tomar banho, naquele rio, no duro. Como eu ia dizendo eu odiava levar chuva esperando a droga do ônibus que demora pra cacete; quando eu chegava no trabalho todo molhado então os meus amigos quase morriam de ri. Mas eu tinha de ir ao trabalho e para isso eu tinha que pegar a droga do ônibus, afinal eu, minha mulher e os meus oito filhos precisam comer beber e vestir, mesmo que sejam estes farrapos de molambos que dá para comprar o dinheiro que eu ganho.
Outra coisa que me irrita bastante também é quando um dos nojentinhos dos meus filhos fica doente. Aí eu tenho que gastar aquele dinheiro que eu tinha guardado para comprar uns dois quilos de algum retalho de resto de carne para fazer um churrasco no ultimo final de semana do mês. Aliás, eu ainda não disse que minha mulher teve dez filhos. Agora só tem oito porque dois morreram. Um morreu de leptospirose e outro de pneumonia. Já avisei aos outros que não tomem muito banho nas encostas aqui perto, nem fique muito tempo na chuva. Tem muito rato aqui e se ficar muito tempo na chuva podem gripar, desta simples gripe podem pegar pneumonia ou algo do tipo e tudo. Eles além de ficarem de cama por uma semana, ainda acabam com a única diversão que podemos ter durante o mês. Ah! Tinha esquecido o futebol, mas o sinal de nossa televisão não era muito bom. Eu acho que era porque a gente mora aqui bem no pé do morro. De vez em quando tem uma enchente e os barrancos de terra desce sobre a nossa cabeça. Mas nós já nos acostumamos, quando é época de chuva forte mesmo, a gente vai morar debaixo de uma ponte que tem perto daqui. Por mim a gente ia morar lá de vez, lá além de não ter este problema de cair barranco, fica bem mais perto do meu trabalho, eu posso ir até de pé e tudo, no duro. Mas minha mulher fica falando que tem vergonha e tudo. Já mandei ela guardar a porra da vergonha dela no cu ou em outro lugar não que não dê pra saber que ela esteja ali. Nunca vi pobre ter vergonha, estas porcarias são luxos de ricos. Mas não vamos morar lá porque ela não quer. Tomara que um dia desses, quando a chuva aperte pra caralho e nós formos pra lá já tenha outra família, que chegou na nossa frente. Aí ela vai aprender onde guardar a porcaria da vergonha dela.
O pior é que todo dia é igual, todo dia é sempre a mesma coisa, com exceção de sábado e domingo é claro. Não sei porque ainda não inventaram uma lei pra botar a gente pra trabalhar no sábado e no domingo também. Rezo a Deus todos os dias pra que isso não aconteça, mas eu acho que logo, logo inventarão, eles sempre inventam leis pra beneficiar eles mesmos. Aqui é mesmo que nada rezar pedindo alguma coisa a Deus, nosso pedido nunca é atendido. Acho que é por causa dos homens daqui da terra, que travam na alfândega os nossos pedidos mandados por Deus. Deve ser por isso, não tenho nenhuma outra explicação. Deus não ia querer que a gente sofresse não é mesmo?
Não falei ainda como eu chego em casa. Mas vou falar, mesmo que alguém não queira ouvir. Eu vou lá na droga do ponto de ônibus e espero um bocado de tempo. Tem alguns dias que uns filhos da puta de uns filhinhos de papai param o carro e tacam ovo goro na gente. Além de chegar em casa nove, dez horas da noite a gente chega fedendo que só cu de puta de beira de estrada. Ontem mesmo eu fui atingido por uns três ovos enormes e bem fedorentos. Minha mulher e meus filhos nem vieram me receber como todo dia. Quer dizer, nos dias que eu chego sem feder em casa. É uma droga mesmo, mas até que não é tão ruim, pois eu já me acostumei com isso. Quando a gente se acostuma tudo fica bem melhor. Pelo menos os cretinos “lá da cúpula corrupta hipócrita e nojenta,” eu acho que já ouvi isto em alguma canção, talvez uma de Gabriel, o Pensador, nem lembro, não tenho rádio em casa; sim eu falava que pelo menos, os filhos da puta do congresso pelo menos nos dão uma saída pra este estado penoso que vivemos nos dão o costume, não é mesmo?
Eu vou dormir agora, estou muito cansado e preciso acordar amanhã às quatro e quarenta da madrugada. Meu trabalho começa às sete horas da manhã, e como eu já disse, tenho que sair de casa duas horas de começar a droga do meu emprego. Porque se não eu corro o risco de perder o meu emprego, e minha vida seria uma merda mais fedorenta do que a eu já vivo. Se amanhã eu tiver sorte não vou dá de cara com aqueles policias corruptos de novo, e se eu der não tem problema, já troquei meu cheque mesmo. Se eu não soubesse que ia levar uma semana de xadrez por isso, eu falava a eles quem são os verdadeiros vagabundos quando eles abordam o camarada. Eu diria tudinho, no duro; que os vagabundos são eles mesmos, as drogas dos deputados e senadores e tudo, no duro.   












Amauri Morais.

Um comentário:

  1. Triste realidade... REALIDADE que muitos de nós preferimos ignorar...

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