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sábado, 10 de julho de 2010

Autopsicografia

























O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.







Fernando Pessoa.

terça-feira, 30 de março de 2010

Trauma





 













Queria erradicar esta sede
Que me arranha o juízo há tempos;
E também sede alguém que cede
Ao sublime frescor de cata-ventos.

Todavia sendo o que sou,
Já me basta ao ventre doído.
E de sangue tua alma me banhou
Quedando o insano coração dormido.

O suave, distante, destino ferido
Sofrendo o que de ti, paixão,
Tornando meu novo anjo caído.
Suma fadiga doentia. Abdicação!
                                                        
                                                                         
                                                                      
                                                                                   Amauri Morais.

sábado, 27 de março de 2010

Escravo




















Deixem meu povo viver
Sanguessugas malditos
Hão de sentir a dor
Que sentimos hoje
O sol escaldante no rosto
O catarro que há muito incomoda
A sede que não cessa
Covardes! Se nos dessem
Pelos menos uma chance
Precisamos apenas de uma.
                                             
                                                           


                                                                          Amauri Morais.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A (des) Sina do Nordestino















E não tardam meus sinais de devoção;
Abate-me essa repentina mudança de estação.
Aqui se chama inverno, lá denomina-se verão.
Diferenças que destiguem Metrópole e Sertão.

Ser deste vale de lágrimas é a sina que me ataca;
Fogem em busca de vida, onde o nós desata.
E o homem forte de antes, em flor desabota,
Hoje se humilha em busca de pão, em porta e porta.

E a Deus agradece quando não mais vai ao portão;
Tornando Deus, assim também o seu patrão.
A realidade lhe arrebata a face com outro bofetão,
Quando recebe a sua primeira carta de demissão.

Um povo tão guerreiro que continua a se perder,
Deixando sua terra para em outra padecer.
E espera o verde, de olhos, na terra resplandecer;
Para em devir, poder sim, a lágrima, antes gelada, verter.




                                           
                                      Amauri Morais.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Tempo Bom.


Vento seco, forte, entrecortado;
Folhas verdes, chão, riso demasiado;
Lágrimas de nuvens, exasperado;
Frio, gostosa dormida, apertado.




  Amauri Morais.